Sons do deserto Marroquino

Faltam duas horas para o ano de 2012.
No meio do deserto marroquino, 40 pessoas estão sentadas à volta de uma grande fogueira crepitante, sob um céu estrelado repleto de constelações das quais não sei o nome.

Faz frio. Os guias berberes habituados a estas temperaturas, animam a noite com a sua música e dança.

São três os grupos que vão passando, tocando e dançando ao despique.

Uns vêm vestidos de dejelabas e turbantes brancos. A sua pele é negra.

O som dos instrumentos quebra o silêncio do deserto com timbres diferenciados de tambor (djembés) , qaraquebs (tipo castanholas, mas em ferro) e vuvuzelas em latão com dois metros de comprimento.

Ao som da música, dançam ritmados.

Outros com turbantes e dejelabas coloridos tocam apenas djembés de pele de camelo que aquecem junto à fogueira para os fazer soar na perfeição.

Cantam músicas típicas de folclore Berbere que não entendemos e completam o cenário da última noite do ano.

Somos convidados a participar nesta dança tribal. Aceitamos para nos mantermos quentes.

Há gente de várias nacionalidades convivendo em línguas diferentes para se fazer entender.

Os espanhóis impõem-se pelo seu número e contagiam o grupo pela sua boa disposição.

À nossa volta algumas das tendas onde vamos passar a noite. São ricamente decoradas de tapetes de cores garridas e quentes. Alguns tapetes ornamentados de lantejoulas brilham na presença das velas e da grande fogueira.

Há quem esteja a fazer uma festa particular dentro da sua tenda. De lá ouve-se música moderna e esvoaçam corpos. A festa está animada.

Cá fora uns aconchegam-se na fogueira, outros bebem para se aquecer, muitos dançam.

Poucos minutos nos separam de 2012, junto à lareira alguns trocam copos e garrafas de espumante. Uma senhora alemã oferece serpentinas a todos. Os músicos berberes fazem a contagem final…9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1, 0. Feliz Ano Novo!, Happy New year!, Bonne année!, Ein gutes neues Jahr!, Buon anno!, ¡Feliz año nuevo!

Claro que para os nossos amigos Berberes, este não é um sentimento que partilham pois estão no ano de 1433.

O frio aperta e o cansaço de um dia inteiro de carro para chegar aqui já se faz sentir.

Olho o céu extasiada presenciando a sua beleza. Caminho entre as tendas. Afasto-me um pouco para poder estar no silêncio do deserto. A pouca luz da noite ilumina o caminho de areia.

Encontro a tenda, onde vou dormir esta noite. Luz, só a das pequenas velas.

Está forrada de tapeçarias de vários padrões geométricos. Temos duas camas e verifico a existência de uma casa de banho improvisada, onde até duche se pode tomar.

Não está mais frio lá fora do que dentro da tenda. A temperatura baixou muito e temos de dormir vestidos debaixo dos cobertores para não arrefecermos.

Lá fora ao longe  ouve-se por algum tempo o som dos tambores até que por fim reina o silêncio profundo.

É difícil adormecer com tanto frio e conto as horas para poder saltar da cama.

Os djembés berberes soam às sete da manhã para assistirmos ao nascer do sol. Somos informados de que durante a noite estiveram cinco graus negativos.

Recuso o passeio de dromedário pelas dunas e corro para o 4×4 que nos levará ao hotel onde vamos tomar um pequeno-almoço farto numa sala quentinha.

À nossa passagem vejo vários acampamentos e camelos transportando turistas.

É lindo o deserto. Uma imensidão de areia lisa que muda todos os dias bailando ao som do vento.

Desta aventura trago boas recordações mas também alguns ensinamentos.

Se dormirem no deserto, levem sacos cama. A temperatura nocturna é incomportável.

Uma lanterna a pilhas também dará jeito.

 

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4 Respostas “Sons do deserto Marroquino”

  1. Rute Pereira

    Muito bem escrito! Foi sem sombra de dúvidas uma passagem de ano a recordar! A simplicidade e beleza do deserto é algo indescritivel! Foi muito boa toda a viagem e também a companhia das pessoas que a fizeram acontecer! Votos de continuação do Bom trabalho. E de mais viagens para relatar :)

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  2. Tânia Sarmento

    Que giro! É mesmo assim que eu recordo o fim de ano que passei no deserto em Marrocos. Simplesmente mágico!

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  3. Manuela Morgado

    Gosto Ilda. Muito. Animou-me a ir lá.
    A magia das tuas palavras dá colorido aos cenários.
    Sente-se no ar o movimento das notas de música pelas mãos encantadas da noite. Cai o frio como cai o dia e recusas a noite por que te trás o silêncio e retira as alegrias. Ainda assim sigo o teu conselho, vou preparar o saco cama para Março. Deserto para mim é sinónimo de calor e depois de te ler, quero manter a chama.
    Beijinho
    Manuela Morgado

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