Buenos Aires: os bairros que não pode perder

Chamam-lhe a “Paris da América”, e não há dúvida que se trata de uma metrópole que apela à sensibilidade europeia, especialmente pela sua requintada arquitetura e pelas suas longas avenidas ladeadas de árvores. Mas pelas veias de Buenos Aires corre sangue latino e pode dar pelo seu charme nos locais mais imprevisíveis. Venha à descoberta de cinco bairros que dão uma imagem (quase) completa desta cidade apaixonante: do sofisticado Recoleta ao inescapável La Boca, atravessamos a capital Argentina à procura de tudo o que a tornou um destino de sonho.

 

 

 

 

 

Recoleta – Num universo paralelo, talvez num caminho onde os trilhos se bifurcam, como diria Jorge Luis Borges, a Recoleta seria a capital mundial de tudo o que é elegante e refinado mas igualmente excêntrico. É o bairro mais exclusivo de Buenos Aires, aquele onde se situam os melhores hotéis, os restaurantes mais badalados e as butiques literalmente mais na moda. A arquitetura de inspiração gálica e as largas avenidas fazem sonhar com uma Paris sem o frio, onde o doce sotaque porteño dá um quê de exotismo. Se quer saber o que os ricos e os famosos da cidade prezam, passeie (ou aloje-se) neste bairro, em especial na Avenida Alvear. Imperdível é a visita à mais bela livraria do mundo, a El Ateneo Grand Splendid, que começou a vida como um teatro, em 1919, e mantém os interiores decorados tal como eram então. No cemitério do Retiro encontra o túmulo de Evita, ícone inultrapassável da nação, mas também grandiosos mausoléus que fariam inveja a qualquer necrópole europeia. Se é arte que procura, permanece no bairro certo: entre os Goya e Rembrandt do Museo Nacional de Bellas Artes e obras contemporâneas no Centro Cultural de La Recoleta, é impossível não ficar surpreendido com a oferta cultural da zona. Se passar na Plaza de Francia ao fim de semana aproveite para visitar a Feria de Artesanos que aí tem lugar.

 

 

 

 

 

La Boca – Mais tarde ou mais cedo (e normalmente é mais cedo), todos os visitantes de Buenos Aires passam pelo bairro La Boca. Aqui encontra dois marcos da cidade: a rua Caminito e o estádio Alberto J. Armando (que todos conhecem como La Bombonera). La Boca começou a vida como um bairro operário. Situado na foz do rio Riachuelo, serviu de morada para a mão-de-obra empregue nas docas, que construía casas com os materiais que sobravam da construção naval. Em 1960, o artista Benito Quinquela Martín teve um impulso que mudaria a imagem de Buenos Aires para sempre: decidiu pintar de cores primárias a fachada das casas da ruela Caminito, naquela altura abandonadas, criando um cenário ideal para as apresentações dos artistas mais boémios. Como se costuma dizer, o resto é história. Caminito ficou famosa pela comunidade artística que para lá se mudou e, depois, junto de todos aqueles que aí buscavam o lado mais risqué e inconformado da capital. Hoje, há quem diga que La Boca se rendeu demasiado ao turismo. E entre os imitadores de Maradona que invadem as ruas propondo fotografias aos transeuntes e o número de lojas de souvenirs é difícil acreditar que se está a ver algo de genuíno. Ainda assim, o bairro merece uma visita (o Museo de Arte Contemporáneo também é aqui). Se tiver a sorte de estar na cidade para um dos míticos confrontos entre Boca Juniors e Rio Plata, então, não hesite: diz quem teve a sorte de assistir que dia de superclássico na Bombonera é algo que nunca se esquece!

 

 

 

 

 

San Telmo – É o mais antigo da cidade, e não há como resistir ao seu charme de bairro popular, em tudo o que de melhor o termo invoca. Ruas empedradas, arquitetura encantadora, um sítio cheio de vida, popular entre artistas e jovens da cidade. Se continuássemos com a analogia a Paris, San Telmo seria com certeza Montmartre. A partir dos anos 20 começou a atrair visitantes, especialmente os interessados nas melhores apresentações de tango. Ainda hoje é considerado o epicentro da dança porteña e, quer se procurem apresentações quer aulas, é um excelente local para a encontrar. San Telmo é ainda um bairro para deambular, como, aliás, tantos outros na cidade. Lembre-se que, mais do que uma cidade de bares ou restaurantes, Buenos Aires, como Lisboa, é uma cidade de cafés. Sentar-se numa esplanada a ouvir discretamente as conversas de quem está à volta é talvez a forma mais engraçada e intimista de tomar o pulso da metrópole. Oferta nunca falta e San Telmo não é exceção. E se gosta de passar horas a explorar lojas de segunda mão também aqui estará no sétimo céu, especialmente ao domingo, quando a Calle Defensa se enche de centenas de bancas e de artistas de ruas. Pegue na sua taça de maté e faça como os locais: procure aquele objeto especial que não sonhava existir mas sem o qual já não imagina a sua sala. E se é fã do cartoonista Quino e da sua mais famosa criação, a Mafalda, aproveite para tirar uma fotografia com a estátua da menina mais contestatária do mundo!

 

 

 

 

 

Retiro – Digamos que é o rosto institucional da cidade. O Palácio San Martín, sede de um ministério, dá o mote para este bairro que é sério, clássico e sofisticado. No centro da Plaza Fuerza Aerea Argentina ergue-se a imponente Torre Monumental, com um relógio no topo, uma prenda de centenário à jovem república, doada pelos residentes britânicos da cidade, em 1910. O Retiro é uma ótima zona para passear confortavelmente em espaços verdes bem cuidados, em especial quando precisar de um bem merecido intervalo das multidões de La Boca, San Telmo ou Palermo. Os centros comerciais mais populares de Buenos Aires, como o Patio Bullrich e as Galerias Pacifico, também pertencem a este bairro. Quem procure o melhor do alojamento disponível também deverá ficar por aqui: a grande maioria dos hotéis de cinco estrelas tem morada no Retiro. A sua única desvantagem é estar relativamente afastado do centro da cidade. Mas, por outro lado, se a sua visita o vai levar a explorar o resto do país, saiba que está perto da estação de comboios e do maior terminal de autocarros da capital.

 

 

 

 

 

Palermo – É o maior bairro da cidade e também aquele que mais vibra com o ritmo porteño na atualidade. Tudo o que é inovador, moderno e cool tem morada em Palermo. Não é coincidência que duas secções do bairro tenham ficado com o nome “Soho” e “Hollywood”. Estúdios de televisão, lojas, bares e os restaurantes mais populares junto dos jovens e profissionais liberais têm sede nestas ruas. Palermo foi também o bairro de Borges, cuja casa familiar, na Calle Serrano 2135, está ainda de pé. Do mesmo modo se conserva o tradicional Richmond, na Calle Florida, um daqueles cafés à antiga onde o autor do “Aleph” passou muitas tardes contemplando labirintos ou livros de areia – peça um cortado e leia um conto ou simplesmente as parangonas do Clarín, da Crónica ou do Buenos Aires Herald. Não vamos aconselhar que ignore de todo a tradicional parrilla, mas recomendamos que explore a extraordinária oferta gastronómica do bairro: cozinha francesa, asiática, peruana e brasileira estão disponíveis em grandes e pequenos restaurantes e até o marisco e o peixe, em décadas anteriores tão raros nesta cidade tradicionalmente carnívora, têm já os seus locais de peregrinação.

 

No final deste percurso, esperamos que, como Borges, afirme “Nos meus sonhos, nunca deixo Buenos Aires”. Y vos?

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